Assertividade: o melhor caminho para estabelecer limites

Assertividade: o melhor caminho para estabelecer limites
Imagem ilustrativa

Braz Werneck

Mestre em Psicologia pela UFRJ

  • Mestre em Psicologia pela UFRJ
  • Especialista em Terapia Familiar e de Casal
  • Terapeuta Cognitivo-Comportamental
Instagram: @werneck.braz

Publicado em

Os limites nas relações compõem um tema exaustivamente discutido. Ainda hoje permanecem as dúvidas sobre como respeitosamente dizer "não" a pedidos, como reivindicar direitos de forma adequada, como expressar opiniões negativas, dentre outras ações inerentes aos relacionamentos interpessoais. Algumas informações, entretanto, são aceitas no ambiente clínico da psicologia como orientações às pessoas que enfrentam dificuldades nesse campo da vida.

A proposta deste texto é situar a demarcação de limites como um problema recorrente nas relações humanas; em seguida, caracterizar alguns aspectos da dinâmica desse processo, para então propor, com embasamento teórico específico, a assertividade como o melhor caminho para que se consiga avançar na imposição de limites, ou seja, no posicionamento honesto e respeitoso consigo mesmo e com os outros.

O tema dos limites nas relações é uma constante no trabalho em psicoterapia. Aparece como um tópico angustiante que interfere na saúde das relações, positiva ou negativamente. O problema em se posicionar de maneira autêntica pode ser facilmente percebido, mas está profundamente ligado às características singulares de cada um de nós, o que faz das mudanças um processo frequentemente complexo e desgastante.

A demarcação de limites - que também podemos chamar de posicionamento autêntico - é uma solicitação, mas também assume a forma de um descontentamento ou de uma reprovação. Esse processo transcorre algumas vezes sem arranhões no relacionamento; não obstante, é comum que haja confronto. Isso acontece, em geral, porque sentimos algum desconforto ao perceber que nosso espaço subjetivo está sendo invadido, quando enxergamos a necessidade de comunicar que alguém está sendo inconveniente ou mesmo desrespeitoso. Demarcar esses lugares, expressando descontentamento é, em geral, desagradável, mas é elemento essencial numa relação saudável.

Os atos que solicitam mudança ou simplesmente dizem não a pedidos são comportamentos que comunicam necessidades ao outro, tendo influência na construção dos papéis em um relacionamento - ao esclarecem comportamentos inaceitáveis – e contribuem para gerar segurança geram segurança.

Os limites, em sua dimensão comunicadora, e precisam ser contundentes, caso o interlocutor resista em aceitar as solicitações. Um lado particularmente importante de toda essa reflexão é que os limites estabelecidos fazem com que as pessoas se conheçam. Depois disso, podem escolher se querem permanecer próximas uma à outra.

Para estabelecer limites de forma clara, a pessoa precisa lidar com as dificuldades que o assunto envolve. O desconforto citado acima aparece quando percebemos que alguém não irá respeitar alguns de nossos direitos e que o melhor a fazer – não necessariamente o mais agradável - é falar honestamente sobre isso. Especificamente neste ponto estamos nos referindo a uma das mais importantes habilidades de comunicação: a assertividade.

A assertividade pode ser conceituada como um comportamento que manifesta de maneira autêntica e respeitosa o pensamento de quem fala. Envolve características que podem ser princípios de convivência, o que seria o caso do respeito – a si mesmo e ao outro. A assertividade é a maneira mais saudável de estabelecer limites, envolvendo em geral, dois elementos básicos: saber as próprias necessidades e transmitir tais necessidades a alguém (TAWWAB, 2021).

Faz sentido pensar que toda a teoria composta sobre a assertividade leva em consideração as dificuldades que o ser humano eventualmente enfrenta ao se posicionar. Trata-se de uma habilidade comportamental norteada por crenças de valorização do respeito próprio e do respeito aos outros (CABALLO, 1996). Sendo assim, consideramos que essas mesmas crenças e uma atitude essencialmente respeitosa sejam base também para o estabelecimento de limites de forma saudável.

É muito comum que o posicionamento subjetivo exija algum esforço emocional, às vezes, até provocando desgaste. Caso o respeito às próprias opiniões seja encarado como um princípio, a pessoa tenderá a enfrentar as adversidades para manifestar suas ideias e crenças1. Por outro lado, quando o respeito às próprias ideias é um respeito fraco, permeado por medo da opinião do outro, medo do confronto e de dificuldades em manejar a própria insegurança, a tendência de uma manifestação que não seja autêntica torna-se o mais provável de acontecer.

Pode-se dizer, a partir das ideias de Tawwab, que as manifestações assertivas compõem um importante elemento para a saúde das relações interpessoais, assim como as manifestações passivas ou agressivas contribuem para o seu adoecimento.

O caminho para o comportamento assertivo traz algumas dificuldades, mas é em geral, viável. A assertividade faz parte do universo das habilidades sociais, um repertório treinável de comportamentos específicos regidos por crenças específicas. Como citado anteriormente, as crenças que norteiam o comportamento assertivo trazem o respeito como uma característica norteadora. Vale ressaltar, também, que as habilidades sociais são características do comportamento e não da personalidade. Isto significa dizer que podem ser treinadas, adquiridas, moduladas.

O comportamento - incluindo o comportamento assertivo - é uma espécie de ponta de iceberg do funcionamento humano. A mudança eficaz de condutas desagradáveis pode até mesmo acontecer focada exclusivamente na conduta em si; contudo, o processo se mostra mais eficaz quando leva em conta o chamado modelo cognitivo, proposto por Aaron Beck, onde uma relação complexa de três dimensões tem como última parte o comportamento humano observável. Nesse modelo, o comportamento é encarado como a consequência de pensamentos e emoções envolvidos no processo (BECK, J. 2022). Para que se modifique uma conduta, então, o indivíduo deve se conhecer a ponto de saber um pouco sobre seus pensamentos, emoções e sentimentos, o que lhe dará a oportunidade de criar hipóteses a estreita relação entre seus processos cognitivos e sua conduta.

Assim, uma das mais poderosas dificuldades para uma pessoa ser assertiva tem origem nos seus pensamentos sobre o que acontecerá caso ela diga não a pedidos, solicite respeito etc. O indivíduo deve defender a legitimidade de seus desejos e questionar os pensamentos que provocam medo ou desconfiança do comportamento assertivo (MCLEOD, 2016). Esses pensamentos terão influência incontestável na escolha de não ser assertivo, ou seja, de não impor limites.

Por precisão conceitual, deve-se dizer que assertividade e demarcação de limites não são rigorosamente a mesma coisa. Todo comportamento de imposição de limites pode e deve ser assertivo, já que não se estimula a imposição de limites agressiva, onde se perca a razão, nem passiva, onde a simples ideia de imposição não faz o menor sentido. Por outro lado, fazem parte do repertório de comportamentos assertivos o comportamento de fazer elogios, aceitar elogios, pedir favores, dentre outros, que não são uma demarcação ou imposição de limites. Em resumo, impor limites é assertividade, mas ser assertivo não é somente impor limites.

A pergunta que permanece é: como esse conhecimento sobre comportamento, pensamentos e emoções pode ajudar na demarcação de limites saudáveis nas relações? A melhor notícia é que a assertividade – como uma habilidade essencialmente comportamental - pode ser treinada, melhorada, adquirida. Se a pessoa tem facilidade para ser assertiva, é razoável dizer que terá menos dificuldade para impor limites do que uma pessoa predominantemente passiva.

No ambiente da psicoterapia, a abordagem cognitivo-comportamental2 traz, em seu arcabouço teórico-prático, o treino em Habilidades Sociais. Um treinamento que leva em conta as variáveis que dificultam o comportamento assertivo, assim como diversos outros elementos que atrapalham o sujeito nessa empreitada. Essa atividade terapêutica alcança ótimos resultados no que se refere à condição de se posicionar de maneira autêntica. Um dos objetivos quando se vislumbra um comportamento assertivo é que ele traga o menor sofrimento ou desconforto possível, pois a previsão de desconforto é uma das razões que leva alguém a se comportar de maneira passiva.

A partir destas reflexões, defendemos aqui que estabelecer limites seja essencial para as relações saudáveis. Portanto, os que experimentam dificuldades nas relações devem investigar se a manifestação de seus desejos, a exigência de respeito aos seus direitos está preservada, não é raro que problemas conjugais, familiares e nas relações profissionais envolvam má comunicação e demarcação de limites ineficaz.

A mais importante mensagem que se espera deixar com este texto é de que a mudança nessa dimensão da vida é perfeitamente possível e viável. Algumas características pessoais facilitam ou dificultam o processo, mas é comum que pessoas com dificuldade para se expressar de maneira autêntica passem a fazê-lo com alguma desenvoltura ao renunciar à falácia de que um relacionamento saudável tem que ser sempre agradável e ao passar a reconhecer e questionar as crenças que sustentam a passividade.

Referências Bibliográficas

  1. TAWWAB, Nedra Glover. Set boundaries, find peace: a guide to reclaiming yourself. London: Piatkus, 2021.
  2. MACLEOD, Chris. The social skills guidebook: manage shyness, improve your conversations and make friends, without giving up who you are. [S. I.]: [s. n.], 2016.
  3. BECK, Judith S. Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática. 3. ed. Porto Alegre Artmed, 2022.
Voltar